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Os desafios do uso de plástico reciclado e como estamos respondendo a eles

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Usar plástico reciclado para criar novas embalagens parece uma solução simples para o problema dos resíduos plásticos — mas, na prática, o processo é muito mais complexo do que parece. Conversamos com dois especialistas em embalagem da Unilever para entender o que está por trás da ampliação desse uso em nossas marcas.

Cientista da Unilever inspeciona o frasco do detergente Wonder Wash, de plástico reciclado
Severine Mongauze, Gerente Sênior de Compras, Sustentabilidade do Plástico, e Dion Moran, Gerente de Embalagens, Sustentabilidade do Plástico
Severine Mongauze, Gerente Sênior de Compras, Sustentabilidade do Plástico, e Dion Moran, Gerente de Embalagens, Sustentabilidade do Plástico

Na Unilever, trabalhamos para diminuir nossa pegada de plástico virgem aumentando o uso de plástico reciclado pós-consumo, o PCR. Até o fim deste ano, nossa meta é alcançar 25% de PCR em nossas embalagens e coletar e processar mais plástico do que vendemos.

Embora a troca para PCR pareça simples, a realidade é muito mais complexa — por inúmeros motivos. Conversamos com Dion Moran e Severine Mongauze, das áreas globais de P&D e Suprimentos Sustentáveis, para entender o porquê.

Por que a transição para plástico reciclado é tão importante?

Dion: O uso de PCR estimula a coleta e a reciclagem de embalagens — o que, por sua vez, aumenta a oferta e mantém o plástico em circulação e fora do meio ambiente. Junto com o uso de embalagens mais leves, materiais alternativos e modelos de reuso e refil, ampliar o PCR é fundamental para reduzir nosso uso de plástico virgem.

Severine: O PCR geralmente tem uma pegada de carbono menor do que o plástico virgem, produzido a partir de combustíveis fósseis, sendo uma oportunidade para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e o desperdício. O uso da PCR também ajuda as empresas a atenderem às crescentes exigências regulatórias quanto ao conteúdo reciclado nas embalagens.

Como funciona a reciclagem de plástico?

Severine: Após o uso, o plástico é coletado, separado e limpo. Depois, é derretido e transformado em flocos ou pellets, que servem de matéria-prima para novos produtos. A maior parte é reciclada mecanicamente, mas há também tecnologias avançadas. Toda a cadeia — da gestão de resíduos aos recicladores — é essencial para o processo funcionar.

Dion: Testamos rigorosamente todo o PCR para garantir que tenha desempenho equivalente ao do plástico virgem e que atenda aos mesmos padrões de segurança e performance. É um processo altamente técnico, que exige colaboração estreita com a cadeia de suprimentos.

Cientista da Unilever mostrando grânulos de plástico reciclado
Quais avanços a Unilever já conquistou com o uso de PCR?

Dion: Reduzimos em 23% o uso de plástico virgem desde 2019, e mais de 21% de nossas embalagens já utilizam PCR. Muitas de nossas Power Brands — como Hellmann’s, Dove e OMO — já incorporam altos níveis desse material.

Severine: Com a expansão do PCR e esforços de coleta física, em 2024 coletamos e processamos 93% da nossa pegada de embalagens plásticas. Continuamos a investir em parcerias locais e em programas de responsabilidade estendida do produtor (EPR), além de testar constantemente novos materiais e tecnologias.

Quais são os maiores desafios para ampliar o uso de PCR?

Severine: O principal desafio é garantir oferta de PCR de alta qualidade. A demanda e a oferta ainda são limitadas, e a dinâmica do mercado faz com que o PCR custeie mais do que o plástico virgem. Por isso regulamentos bem estruturados — como EPR — e novas tecnologias são essenciais para incentivar a coleta, a separação e a reciclagem.

Dion: Trocar plástico virgem por PCR não é uma simples substituição. A qualidade do PCR varia muito, dependendo de como foi coletado, separado e processado. Para embalagens de alimentos, beleza e cuidados pessoais, o PCR precisa atender aos mesmos padrões de segurança, performance e regulamentação do plástico virgem.

Como esses desafios se manifestam na prática?

Severine: Um exemplo é a cor. Mesmo o PCR de grau alimentício pode adquirir um tom acinzentado após múltiplos ciclos de reciclagem. Quando trocamos as resinas PCR das nossas embalagens de maionese Hellmann’s devido à escassez de fornecimento, muitos consumidores acharam que havia algo de errado com o produto por causa de seu tom acinzentado. Incluímos rótulos explicativos, mas isso reforçou o quanto estética e cor da embalagem influenciam a percepção.

Dion: É sempre um equilíbrio. Um material pode ser mais sustentável, mas se não proteger o produto ou não gerar a percepção certa para o consumidor, não funciona. Com Domestos, por exemplo, o conteúdo altamente concentrado exige embalagens que garantam integridade e segurança. E no caso de itens mais complexos, como desodorantes em bastão, trabalhamos com fornecedores para ajustar o processo produtivo e evitar imperfeições.

Cientista da Unilever inspecionando um componente da embalagem de um desodorante feito de plástico reciclado
Como a Unilever está enfrentando esses desafios?

Severine: Trabalhamos com uma rede de 60 fornecedores para garantir o fornecimento. Incluímos especialistas técnicos nas parcerias para resolver problemas e co-desenvolver novas soluções de reciclagem e manufatura. Nos EUA, Canadá e Brasil, desenvolvemos novas capacidades de separação, limpeza e mistura de resinas para reduzir o tom cinza e criar embalagens transparentes. Com isso, estamos lançando frascos e potes de Hellmann’s com 50% a 100% de PCR, evitando cerca de 17 mil toneladas de plástico virgem.[a]

Dion: No nosso Centro Global de P&D de Embalagens, usamos métodos avançados para analisar o PCR em nível molecular e ferramentas digitais para prever comportamento e cor — o que reduz a necessidade de protótipos e acelera o desenvolvimento. No nosso Centro Avançado de Manufatura, simulamos e otimizamos materiais e designs antes de levar ao mercado, reduzindo ainda mais testes físicos.

O que mais entusiasma vocês sobre o futuro das embalagens sustentáveis?

Dion: As tecnologias de reciclagem estão avançando rápido, abrindo novas possibilidades em qualidade e eficiência. Para que elas escalem, precisamos de inovação, colaboração e políticas que incentivem a demanda e a infraestrutura necessária.

Severine: Ferramentas de inteligência de resíduos e IA podem transformar totalmente o setor, oferecendo dados em tempo real sobre como embalagens estão sendo coletadas e recicladas. Ainda é cedo, mas é um campo cheio de potencial.

[a]

Tampas e fechos não incluídos. Cálculo da Unilever com base no volume de PCR adquirido entre dezembro de 2024 e novembro de 2025.


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